um apelo lamentoso
Você mal saiu e eu já sinto falta dos seus lábios, de como você ria e sussurrava "Antônio, amor meu", do jeito que você dançava numa leveza sem fim. Quando você recitava poesia, toda orgulhosa por ter conseguido enfim decorá-la, eu me perdia na sua voz, de tão doce e sutil. Ainda consigo sentir seu cheiro no meu sofá, no exato lugar onde comprovamos que dois corpos não podem, realmente, ocupar o mesmo espaço, ainda que tenhamos tentado ferozmente desmentir a ciência; onde trocamos carícias e você me fez feliz, mostrou-me que eu podia rir novamente, e não somente rir - g a r g a l h a r. Desculpa se não te dei carinho o suficiente, eu nunca fui uma pessoa de falar e mostrar tanto, e sim de sentir. E o que eu senti por ti, o que eu SINTO é algo que eu nunca imaginaria que um dia eu fosse ser capaz de lidar, esse amor incondicional e louco. Estou me afogando em lágrimas e busco desesperadamente, em vão, sua mão para me salvar. Meu bem, volta pra casa.
egoísmo? talvez
Foi um alívio fazer as malas e sair de seu apartamento. A decisão pode ter sido um tanto precipitada e repentina, mas não me arrependo. Todos os momentos bons, prazerosos e felizes foram superados pelo sufoco que você me fez passar. Você dizia gostar das minhas observações noturnas, das minhas teorias sobre as nuvens no céu, da minha voz ("Leve e suave... Doce e sutil.") e, ainda assim, prendia-me, de modo que eu me sentia enjaulada, tal como um pássaro numa gaiola. Eu perdi meu encanto por ti; e tu, então, perdestes pra sempre o meu canto.
A sensação é inexplicável. É como se houvesse uma tempestade ininterrupta dentro de mim, destruindo-me, mas nunca por completo. Um naufrágio sempre com sobreviventes. Hoje é dia 5 e eu penso se você conseguiu lembrar sozinha de pagar sua aula de inglês...
Você não atende o celular; não me responde no Facebook; e continuo a te procurar pra me salvar. Fico me perguntando onde errei, se eu não fui o suficiente. Ou se fui mais do que o suficiente. As perguntas só me destroem ainda mais.
insatisfação humana
Voltar para a casa dos meus pais definitivamente não foi fácil. Mamãe nunca gostou 100% de você, mas me recebeu de braços abertos. "Então, o que aconteceu contigo e com Antônio, filhinha?" ela me perguntou, com aqueles olhinhos curiosos tentando disfarçar o repreendimento ao mencionar o seu nome. "Foi demais pra mim, mãe." eu respondi, desviando o olhar e sentindo os olhos marejarem.
Eu me acostumei à sua presença. O dia de pagar o inglês passou e você não estava ali pra me lembrar. Eu estava acomodada - não mais sabia tomar os remédios sozinha, acostumada a recebê-los no horário certo, sem precisar me preocupar. Você estava ali pra botá-los na minha boca. E estava sempre a cozinhar pra mim, deixando-me no maior conforto. Chamava-me sempre pra assistir a um filme no cinema, sabendo da minha preferência pelos nacionais. Nesses momentos, sempre sinto tanto a sua falta, e é tão doloroso...
Pois é, o ser humano tende a ser sempre insatisfeito, até mesmo nas melhores das situações. Admito: eu sou humana.
e é pra isso que servem os amigos
Fazia um bom tempo que eu não via o Antônio. Não por falta de interesse meu - nos primeiros meses de seu relacionamento com a Roberta, eu o procurava, mas ele nunca estava disponível. Depois, simplesmente parei de procurá-lo, certo de que aquele amor seria duradouro e de que, uma hora ou outra, ele sentiria minha falta.
Posso dizer que fiquei magoado por ele não ter sentido minha falta nem quando Roberta o deixou. Apareci de supetão no seu apartamento, levando uma pizza para assistirmos no domingo o jogo de futebol que ele tanto gostava de ver comigo, antes da garota aparecer em sua vida.
"Antônio? Antônio, cara, pára de fazer amor e abre essa porta!" eu gritei enquanto pressionava a campainha. "Antônio?"
Eu me assustei, inicialmente, com o rosto inchado que o meu amigo exibia ao abrir a porta e me convidar pra entrar. Achei que a malandra tinha dado uma surra nele, algo do tipo, mas ele me disse que não era nada sério, nada pra se preocupar. E começou a chorar logo em seguida.
Fiquei preocupado, nunca o tinha visto daquela forma tão sensível e frágil. Sentei no sofá a sua frente e ficamos um bom tempo calados, sem dizer nada.
"Você nunca mais me ligou." eu comecei dizendo. "Sabe, você podia ter me ligado. Ou atendido as minhas ligações." não que quisesse soar como um amigo ciumento; eu era só um amigo preocupado. "Eu quebrei meu celular depois que Roberta não quis mais me atender." Antônio disse com uma voz fraca, indicando com a cabeça os restos do celular, para o qual evitei olhar.
Passamos mais um tempo daquele jeito, até que enfim, resolvi agir. Levantei e sentei ao seu lado.
Esperei.
E esperei.
E a coragem não veio.
Ela só chegou quando, de súbito, Antônio recomeçou a chorar. Daí, consegui envolver meus braços ao redor do seu corpo e dizer tudo o que eu queria no gesto, tudo o que eu não conseguia pôr em palavras. Depois disso, comemos a pizza e senti o seu humor melhorar.
A tristeza, entretanto, continuava presente naquele apartamento, quase palpável.
a vida segue
Faz mais de dois meses que não ouço noticias de Toni. Tenho curiosidade pra saber como anda sua vida, mas temo que isso leve alguma esperança pra ele. Resolvo me manter afastada, então, para o seu próprio bem. Voltei a trabalhar numa lanchonete e continuei a compôr músicas, de modo que praticamente todo sábado eu estou ocupada tocando num barzinho. Minha maior preocupação continua sendo a recuperação de Antônio, mas eu devo continuar seguindo a minha vida.
uma constatação óbvia
"Ela não vai voltar." admiti em uma das visitas dominicais feitas por meu melhor amigo, agora mais presente na minha vida. Seu olhar, em resposta, foi como se eu tivesse descoberto algo óbvio. "É, ela não vai voltar. Ela já deve estar com outros. E eu continuo a sofrer." continuei a falar, mantendo o tom de voz calmo, com o olhar focado num ponto da TV. "Eu devia agir. Devia mostrar a ela que também segui em frente." tomei a decisão e, enfim, virei o rosto pro meu melhor amigo. "O que você acha?" perguntei. "Acho que você devia voltar a viver." ele me respondeu, simplesmente. "Não seja um babaca sofrendo por uma menina qualquer."
memórias são eternas
Lembro da primeira vez que nos encontramos. Aconteceu tudo muito naturalmente; era um dia de clima agradável, um sábado, eu andava de bicicleta num parque e ele vinha correndo de lá, alto e musculoso, acompanhado por um garoto igualmente bonito, atraindo olhares pelo caminho. Não o meu, claro. Nunca tinha me interessado antes por caras desse estilo. Passei de bicicleta exatamente ao seu lado e senti o seu olhar a me acompanhar. Acho que foi nesse momento em que gostei dele. Gostei de sentir esse olhar curioso em mim; desse olhar como a querer me decifrar, como se eu fosse um mistério. Foi nesse momento que dei meia-volta e comecei a acompanhar sua corrida, de bicicleta. "Oi, eu sou a Roberta." apresentei-me, e toda uma história teve início. Era só um sábado agradável qualquer.
A primeira coisa que ela me disse foi "Oi, eu sou a Roberta". E eu a achei tão linda, e sua voz me deixou tão bobo. Lembro-me que ela andava de bicicleta e estava com uma trança nos cabelos. Sua coragem em falar comigo, assim do nada, também me atraiu. Não demorou para que começássemos a nos envolver; e eu, a cada dia, apaixonava-me mais por aquela garota curiosa, romântica e poética, dona dos céus e das nuvens.
decifrando mistérios
Quanto mais o tempo passava e mais eu me aproximava do Antônio, mais eu gostava dele. Sincero, romântico, bonito, esportista. Alguém que não era exatamente o meu oposto, mas que vinha de uma realidade um tanto diferente da minha. Encontramos, contudo, tantas coisas em comum! Compartilhamos tantas coisas boas, trocamos tanta energia positiva.
E o tempo, por melhor que tenha sido em me fazer conhecer o menino, acabou por destruir o mistério que eu tinha criado acerca dele. Antônio era o meu mistério (assim como eu era o dele) e, decifrado, tinha perdido o seu valor.
a vida segue PARA TODOS
Quatro meses sem vê-la. Eu tinha retornado ao trabalho - após súplicas e muitos pedidos de desculpa - num jornal e tinha desistido daquele apartamento. A venda foi certa. O dono era um senhor simpático que aproveitaria aquele espaço melhor do que eu; aquele lugar, pra mim, carregaria o perfume dela eternamente.
Estava me esforçando em ocupar o meu tempo e esquecê-la. Tarefa fácil não era, garanto. Era, sim, um sofrimento danado. Adrenalina, até - ter que evitar o caminho que eu sabia que ela fazia para não encontrá-la de surpresa. Ainda assim, o antigo Antônio retornava. Eu tinha esquecido de como era antes de conhecê-la, como era não amar, e estava voltando a me lembrar.
Cinco meses sem receber notícias de Antônio e eu não me importava mais como antes. Aliás, a minha superação havia sido tanta que já tinha vindo um outro namorado, algo tão passageiro que tinha durado, sei lá, cinco dias. Acho que eu, exigente e livre, nasci para ficar sozinha.
um encontro indesejado
Era um sábado. O sol estava no céu mas o clima aparentava estar agradável. Num intervalo do trabalho, resolvi descer do edifício e dar um passeio num parque, tomar um sorvete, quem sabe.
Não, eu não esperava encontrá-la. Eu costumava sempre passar por aquele parque, distante do outro onde nós nos conhecemos, longe da lanchonete onde ela trabalha. E lá estava ela, com uma expressão séria e curiosa, mexendo as mãos daquele mesmo jeitinho conhecido de antes, na fila para pegar um sorvete.
Resisti a tentação de chamá-la e dei meia volta.
"Antônio!" ouvi a sua voz me chamar e não virei para olhar. Constatei que sua voz continuava aveludada e encantadora. "Toni!" chamou-me novamente, ao que não resisti ao apelido antigo e carinhoso e virei. A garota corria em minha direção e parou quando já estava bem próxima de mim. Encarei-a; olhei nos seus olhos, a espera de uma palavra sua, uma explicação. Sim, cinco meses e eu ainda esperava uma explicação. Inspirei e expirei. Controlei-me. Olhei continuamente no fundo dos seus olhos, procurando a menina que deveria ter ido me salvar meses antes, no momento que tinha me deixado; no seu olhar, nada encontrei que restasse da antiga garota. E, portanto, não me reencantei.
um olhar vale mais que mil palavras
Encontrá-lo foi algo que só o destino explica. Toda nossa história foi algo meio do acaso.
Como na primeira vez que o vi, ao correr para me aproximar de Antônio e ver como ele estava, senti o seu olhar sobre mim. Dessa vez, não gostei do peso do seu olhar. Pesava, e muito. Mágoa. Ressentimento. E mais mágoa. Dentro de mim, uma culpa começou a reinar, diante de todo o sentimento que ele me passava através do olhar. Assustei-me. Perdi as palavras que eu gostaria de dizer a ele. O que saiu dos meus lábios foi algo inconsciente, fruto do seu olhar tão profundo e expressivo:
"Perdoe-me."
Olá Clarissa, que surpresa esse blog! na minha visita "pertubadora" à sua casa, prometi abri-lo e desvenda-lo. Mas só agora, tive a oportunidade de ler seusescritos. Que tola fui eu, quanto tempo perdi. Seus textos são, como posso definir, Ùnicos! e haja fôlego! Você escreve muito bem, e algo em suas palavras, me relembrou um eu lírico que eu tive e que não morreu, mas se encontra adormecido em mim. Parabéns mais uma vez. O"a base de neurose" já entrou pra minha lista de blogs favoritos. Bejos, Graci
ResponderExcluirHey Graci! Primeiramente, obrigada por ter entrado no blog. Não posso esconder o quão feliz fiquei ao ver que havia um comentário nesse post, principalmente depois de ver a autora do comentário.
ExcluirFico extremamente agradecida pelos elogios. Admiro-te muito e sinto-me lisonjeada em ser elogiada dessa forma. Bem, é uma gratidão tão grande que mesmo que eu tente, não consigo expressar em palavras.
Quanto ao seu eu lírico adormecido, nunca é tarde para acordá-lo, certo? Eu ficaria muito feliz em ler qualquer coisa vinda de ti. =D
Mais uma vez, obrigada, e sinta-se convidada pra voltar aqui sempre que desejar. <3
Cara, eu não sei nem o que dizer, essa história ficou MUITO BOA, MUITO MESMO! Quando você crescer e se tornar escritora, pode ter certeza de que vou comprar todos os seus livros sem nem parar pra pensar HDISAUDHSAUSDHAUI
ResponderExcluirEmi! Eu nem tinha visto isso, omg
ExcluirMuito obrigada, meu amor, UHAUHUAHUAHUAHU Ai meu deeeeeus, que linda <3 obrigada mesmo!