Na vida, muitas vezes surgem pessoas inusitadas e repentinas que nos afetam positivamente de alguma forma. E essas pessoas são daquelas que sabemos que só vamos ver uma vez na vida. Por isso, venho praticando o ato de não perder oportunidades, de realmente aproveitar e viver.
Lembro-me de uma história que aconteceu comigo - se me permitem, irei abrir esse parênteses brevemente - onde um personagem em especial me fez um bem enorme, o que foi algo mútuo, imagino. Nunca mais o encontrei, ainda que eu tenha voltado ao mesmo local onde nos encontramos na primeira vez (e no mesmo horário), entretanto, ainda assim, pretendo nunca esquecê-lo. (Um senhor quase surdo, magrelinho e com óculos grandes e redondos não é alguém fácil de ser esquecido, mas...)
Bom, recentemente me ocorreu algo nesse estilo. Estávamos eu, minha mãe e a amiga que mora na Suíça da minha mãe - a qual chamaremos de Néia - no ônibus, indo para Camamu, onde iríamos pegar uma lancha rápida para fazer a travessia para Barra Grande. Lá, ficaríamos na casa de Néia.
O ônibus em questão tinha como destino Bom Despacho, mas fazia diversas paradas no caminho para pegar ou deixar passageiros, o que seria nosso caso.
A viagem seguia tranquila e eu não tardei a dar uns cochilos. Acordei na parada em Itacaré.
Meu Deus, não sei nem explicar. Nessa parada breve, entraram seis deuses gregos no ônibus, falando uma outra língua e todos meio confusos pra se acomodarem em seus lugares. Mas eram bonitos de verdade, ainda que fosse uma beleza diferente. Desses que fazem bem aos olhos, sabe. Colírios. Meu coração parou. Até tinha comentado com minha mãe sobre, que me deu de resposta um "Não devem ser daqui". E ela não estava errada.
Dois desses meninos se encaminharam para as duas poltronas atrás da minha. Destino ou coincidência? Você escolhe. Minha mãe, assanhada que só ela, já foi logo perguntando de onde esses meninos eram, o que estavam fazendo no Brasil e tudo o mais. E foi uma mistura de espanhol com português, e eu adoro essa mistura na comunicação, esse esforço apesar das diferenças na linguagem e cultura.
Foi graças a essa conversa que descobri que os gatinhos vieram do Chile, estavam a passeio. Diego Antonio e Alejandro super animados faziam mil brincadeiras. Alejandro disse que Diego, se fosse um dia da semana, seria Domingo, porque só gosta de festa.
– E vocês, meninos, estão a quanto tempo aqui? – minha mãe perguntou.
– 15 dias. – Alejandro respondeu.
– 2 meses. – foi a resposta de Diego.
– Él está há 2 meses, porque él es domingo festa! Yo estoy a 15 dias, porque yo trabajo.
– Hmm, bom. E trabalha com o que? – minha mãe perguntou novamente.
– Trabajo em casa... – Alejandro disse. - bebendo cerveja!
Risos. Jovens se divertindo, sendo felizes.
Num outro determinado momento, logo depois de zoar os outros dois amigos da poltrona ao lado dizendo que eles eram um casal, minha mãe comentou que um amigo dela tinha um terreno no Chile, com a plantação de alguma coisa que ela não se lembrava. Eles já foram logo perguntando "De quê? Maconha? ÊÊ maconha!" e fizeram uma festa. Essa animação, a alegria contagiante, as brincadeiras... São os motivos de eu ter me afeiçoado tanto a eles. E que, inconscientemente, eles me trouxeram um bem. Eles "fizeram o meu dia", levaram alegria pra mim, mesmo sem saber. Deram-me um incentivo, uma força de vontade; foi algo tão simples, tão comum, contudo, tão gratificante.
E nesse momento, com a situação já estando no passado, só consigo pensar que esses dois foram personagens repentinos na minha história, que eu nunca os verei novamente (ou não, do jeito que o destino é malandro comigo...). Tudo acabou quando o ônibus chegou em Camamu e eu segui minha vida, enquanto eles seguiram o caminho deles (e, aliás, eles estavam indo pra Salvador. Se alguém de Salvador ler isso e encontrá-los... Hahaha).
Aprecio esse jeito meu, e desculpa se não estou sendo modesta, de notar essas coisas do dia-a-dia. Os chilenos podiam ter sido apenas pessoas que passaram por mim, que eu troquei palavras e só. Mas sendo detalhista do jeito que sou, eles foram algo a mais, eles me mudaram de uma certa forma. Sinto necessidade de compartilhar isso com todos. Tenho em mim um sentido de que todos deviam ser assim, apreciar esses detalhes e esses momentos aparentemente insignificantes. Constatar as pequenas coisas, mesmo que absurdas de tão pequenas, porque elas podem surpreender sendo tão grandes! E não esquecer, nunca, de viver...
Esse foi só o início de uma viagem linda que tive, que começou bem logo no ônibus, com esse surpreendente encontro. Barra Grande é um lugar lindo e cheio de energia boa... As aventuras e adrenalina que tive lá contarei num outro momento, e olha, não foi pouca coisa não! Hahaha.


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