terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

ele





  Ele vivia solitário, somente ele, sua mente e os papéis. Bom, não literalmente só, já que morava na companhia praticamente nula do seu pai - por volta dos 95 anos, o senhor outrora tão cheio de vida e com o sarcasmo na ponta da língua se mostrava incapaz de desenvolver até mesmo uma simples conversa. 
   De qualquer modo, o moço vivia solitário. Quanto a solitário, refiro-me não à solidão propriamente dita, mas sim à forma em como ele se refugiava, vivendo sozinho, em seu próprio mundo: a sua cabeça.
  Não tinha sido assim por toda a sua vida. Costumava ser um menino animado. Gostava de festas. Acreditava ter amigos. Sempre, entretanto, teve um lado meio sensível, e foi justamente esse lado que sofreu quando descobriu quão falsa era a afirmação que saía de seus lábios ao dizer que tinha amigos fiéis e leais.
   Tinha potencial para se tornar um grande arquiteto, não se pode negar. A arte e o talento foram herdados da sua mãe, que Deus a tenha. Faltava, contudo, almejar o sucesso, e o rapaz não o desejava. Procurou, por toda a sua vida, apenas a felicidade: a plena e calma felicidade.
  E sempre que a encontrava, a danada insistia em escapar de suas mãos. Dizia-se livre, prisões que sofressem, pois nunca iria ser posta numa jaula. Constantemente, via-se a destruição que ela causava. Fosse no término do casamento do rapaz que aparentava estar tão bem, fosse na morte da sua bondosa mãe, fosse até mesmo em momentos simplórios que, no fim, se provavam ser apenas mais um engano da sua própria mente. Somente algo arquitetado, planejado - uma mentira.
   Ele foi engolido por si. Por suas frustrações, por seus medos, por suas decepções.


   Ele achou que o mundo o destruiu.



   A verdade, meu bem, é que ele próprio se destruiu.



Imagem: weheartit



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