domingo, 22 de setembro de 2013

Prima Vera

   Uma vez, apaixonei-me por uma menina chamada Vera. Ela era doce, leve, extremamente alegre e tinha uma grande auto-estima, de modo que fazia as pessoas ao seu redor se sentirem bem. Cabelos ondulados e loiro claro, o corpo era longo e esbelto, tinha postura. Era prima do meu melhor amigo-quase irmão, e como todo mundo a chamava de prima Vera, passei a assim chamá-la também. Prima Vera. 
   Não demorou para que o sentimento me tomasse. Eu passei a frequentar cada vez mais a casa do meu amigo-quase irmão, apenas com a esperança de vê-la mais uma vez. E, constantemente, eu a via. Quase sempre de vestidos e com um sorriso nos lábios.
   Nossas conversas envolviam risos, reflexões e nossas opiniões. Eu sentia-me a vontade para conversar com prima Vera sobre qualquer coisa, pois sabia que ela respeitaria minha opinião e daria a dela. Estar na presença de prima Vera era relaxante e acalmava minha alma. Um acalmante humano. Quando disse isso a ela, sua reação foi o esperado: soltara altas gargalhadas e, depois, parara para pensar no real significado. E, aparentemente, sentiu-se bem em fazer o bem para as pessoas. 
   Meu amigo-quase irmão, ao perceber nossa aproximação, sentiu-se na obrigação de me aconselhar.
   - Lucas, presta atenção, mano. Sei que a Verinha é uma ótima pessoa e tudo o mais, e é justamente por isso que eu vou te perguntar uma coisa: Por que você acha que, apesar de sua "perfeição", ela ainda está sozinha, sem namorado? Mano, toma cuidado com ela, porque ela pode acabar quebrando teu coração.
   De imediato, reagi na defensiva. Disse que eu não era assim tão bobo, que não cairia nas armadilhas de uma mulher, relaxe, está tudo bem.
   Não estava.
   Mesmo após os conselhos, no dia seguinte, meu coração acelerou tanto que eu achei que fosse ter um ataque. Não sem motivo: suas mãos delicadas tocaram em meu rosto e, pela primeira vez, vislumbrei o seu olhar profundamente. Encaramo-nos por algum tempo, até eu ignorar totalmente meu amigo-quase irmão e tomar seus lábios para mim. Foi um beijo macio, doce. Prima Vera tinha gosto de girassóis, rosas e margaridas, e não sei como reconheci esse gosto, já que nunca os provei. Mesclado a isso, vinha uma certa lembrança de canela e açúcar refinado. E a sensação, ah, a sensação foi inexplicável. A minha cabeça pareceu se esvaziar e o clichê "nada mais existia pra mim" se tornou real, naquele momento. Nossos rostos se encaixavam com perfeição e nos movíamos em sincronização, como se um adivinhasse o próximo movimento do outro.
   Quando nos afastamos, tive a necessidade de beijá-la de novo. Abri os olhos e percebi: prima Vera chorava. Seus olhos verde-mar estavam vermelhos e as lágrimas escorriam por sua face. Enterrei seu rosto no meu ombro e a puxei pra um abraço.
   - Perdoe-me. Por favor. - sussurrou Vera, num tom quase inaudível.
   No momento, tomado de uma paixão e êxtase, não entendi o porquê de eu ter de perdoá-la. Eu somente conseguia dar carinho em seus cabelos e repetir "Tudo vai ficar bem, não se preocupe, minha menina".




   Após esse dia, que hoje ainda o considero o melhor da minha vida, nunca mais a vi. Prima Vera fora embora, encantando-me e, depois, fugindo desse sentimento que parece amedrontá-la.
    Até a Prima Vera [primavera] pode ser traiçoeira. 




Um texto simples, para comemorar o início da primavera hoje.
Foto por Clara Gabriella

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